quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Coisas de mulherzinha

Eu vi tudo,
Elas se beijaram quando não tinha ninguém por perto.
Não era um beijo inocente,
Ninguém estava fazendo uma descoberta.

Meninas se beijando,
Sob a lua molhada,
Numa noite de dezembro,
Muito perto da estrada.

Não achei diferente,
Na verdade não conseguiria diferenciar,
O que tem de diferente entre meninos e meninas
Na hora de se beijar.

Havia desejo,
De certo não lhe faltaram excitação,
Nenhuma delas ficou sem jeito,
Era tão natural a elas,
Que não pareciam temer discriminação.

Um novo olhar,
Para um novo beijo,
Dado do mesmo jeito,
Ente meninas,
Que não precisam de meninos para ter satisfação.

(Coisas de mulheres – Leonardo Kifer)

Reciclando os papéis.

Adeus saudades...
Foi o que eu disse quando o trem partiu.

Livre-me dela,
Caminhando sobre a terra que segurava o mar.
Sob o sol que não se pôs,
De um horizonte a encontrar.

Que vá embora o que chegou,
Deixando a solidão me encontrar.

Dos erros que ainda estão por vir,
Façam do riso um verdadeiro perdão,
Pois já comecei a ensaiá-los.

Papel rasgado na mão,
Comecem com os riscos
O que vai ser poemas,
Mesmo que não venham as rimas,
Ainda que não falem de paixão.

(Poema de papel picado – Leonardo Kifer)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Modificações

Amanhecer com chuva,
Em um outono enraivecido,
De um horizonte desenhado.
Numa cidade de bandidos,
Onde o frio já não existe,
Resta apenas o desarranjo das ruas.

Ao som de buzinas,
Nessa selva de pedra,
É que o dia começa,
Pra esse mundo de pressa.

Vinte e quatro horas de caos,
Um dia inteiro reclamando da vida,
Todos os dias iguais.

É preciso mudar,
Levantar do sofá,
Deixar de lado a TV,
Mostrar que pro mundo mudar,
É preciso se mexer.

Um basta na violência,
Um ponto final na corrupção,
Pro Brasil se desenvolver
E preciso educar a nação.

Começar de dentro para fora,
Modificar o errado em mim,
Exercer cidadania,
Sem alterar o inicio,
Mas mudar o fim.

(Sol da meia noite – Leonardo Kifer)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Sem correntes

No fundo somos todos tolos.
Amamos os que não nos merecem.
E nos achamos superiores quando cobramos nosso amor.

Erramos quando achamos que somos Titãs,
E nos descobrimos fracos,
Na hora em que a força termina em lágrimas,
Por uma dor,
Que um coração machucado é capaz de causar.

Fingimos seguir em frente,
Mas estamos sempre andando em círculos,
Somos incoerentes,
Quando cedemos à paixão,
Ou quando dela não conseguimos fugir.

Revivemos momentos,
De risos e choros,
Em pensamentos que mantemos acessos,
Num fogo tão brando que se apaga ao sentir o mais fraco dos ventos.

É o inconstante sentimento que nos assombra,
E faz com que tenhamos medo de vivermos livres,
Nos fazendo achar esconderijos,
Num outro, que não é nossa paixão.

Amar é quase sempre ter coragem de arriscar,
Viver o inatingível,
Errar sem sequer ter pensado em acertar.
É o inadequado sentir,
Rasgando nosso peito,
Num compasso acelerado e sem ritimo
Um tal de Tum Tum Tum
Afirmando que amor vai além da paixão.

(Perdendo os medos – Leonardo Kifer)

A volta...

Foi estranha a forma em que Frida reapareceu.
Ela chegou como se nada tivesse acontecido,
Entrou em casa sem sequer me cumprimentar.
Não olhou em meus olhos.
Deixou as malas na sala e foi se deitar.

Eu ainda estava preso a perplexidade que tomava conta de sua volta.
Frida estava de ali, a um cômodo de mim.
Depois de meses ela retornara.
Inexplicavelmente ela respondeu minhas preces,
E voltou.

Ainda inerte a sua volta,
Não pude deixar de me prender ao fato de que a mulher que me abandonara no passado voltou,
E sequer me deu uma explicação.
Depois de meses de angústias, esperas,
Ela me devia isso,
Precisava me dar ao menos satisfação de seu sumiço.

Fui até Frida certo de obter dela todas as respostas para as minhas agonizantes perguntas,
Chamei por seu nome,
Mas ela pareceu não me escutar,
Quando ameacei chamá-la novamente,
Virou-se e olhou para mim.

Os olhos já não eram os mesmos de antes,
Já não impunham a altivez de outrora,
Frida estava chorando,
Seu rosto parecia ter envelhecido anos,
Estava fraca.

A mulher que estava na minha frente,
Era apenas uma sombra daquela que me deixou.

Deixei todas as minhas indagações de lado,
Abracei Frida como se ela nunca tivesse existido uma mágoa entre nós,
Não podia suportar a dor de vê-la sofrendo.

Ela olhou em meus olhos,
E de imediato entendi que era um pedido de perdão,
Eu sorri para ela,
Deixando claro de que a havia perdoado.

A saída de Frida aqui de casa,
Tornou-se apenas uma história,
De um dia que terminou.
Não lembramos, pois tudo passou.

Hoje o que importa é tê-la de volta,
Ao lado da nossa filha que acabou de nascer,
Dizemos a todos que foi prematura,
Pra ninguém da verdade nunca perceber.

(Voltando atrás – Leonardo Kifer)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ao esquilo...

Se o mundo fosses feito de momentos,
Meu mundo teria um outro olhar,
Não eram olhos de curiosidades,
Mas eles pareciam o mundo observar.

Uma águia,
Observando todos ao seu redor,
Não buscava uma presa,
Apenas um mundo melhor.

E o mistério que seus olhos refletiam,
Me roubaram para si,
E inesperadamente,
Eu a olhava inquieto,
Sem saber aonde iria.

E perdido nos olhos desconhecidos,
Me vi encantado com tamanha imensidão,
Olhos ricos,
De uma juventude em ascenção.

De volta ao meus olhos,
Enxerguei o mundo sem cor,
Não vi mais você,
E sem saber,
O mundo estranhamente parou.

(Seus olhos – Leonardo Kifer)

*Dedico o texto ao meu esquilo Joaquim.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O amor de Laura...

Eu não consigo me recordar quando foi à última vez que Laura sorriu para mim.
Há tempos ela tem agido de forma diferente, deixou de ser aquela mulher alegre e se tornou essa pessoa amarga que vive resmungando pelos cantos de casa, que passa as noites chorando, e parece nunca me ver, sempre passa a impressão de estar só.
Eu já tentei de tudo, mas nada fez com que Laura saísse da inércia que tornou a sua vida, tudo parece ter perdido o encanto, as cores pareciam desbotadas aos olhos daquela mulher sem aroma.
Olhar para Laura significava enxergar o vazio, e de imediato sentir um súbito desejo de chorar. Pena era a palavra que melhor a descrevia.
Mas hoje ao vê-la rir para mim, senti o velho cheiro de sarcasmo que emanava do já esquecido sorriso de Laura.
Amei Laura desde a primeira vez que a vi até o último instante ao seu lado, quando o “acaso” me tirou a carne e me trouxe às sombras.
E hoje que Laura se junta a mim por suas próprias mãos e não pelo inesperado desejo de morte que corre nas veias dos que matam por matar, como fizeram comigo, ela voltou a querer a desejar a vida no instante exato de ser recebida pela morte.
Contrário desejo é o amor, que encontra na morte a satisfação de se completar.

(Amor eterno – Leonardo Kifer)