domingo, 5 de setembro de 2010

Incompleto

Eu te amo.

Talvez outras frases não fossem tão assustadoramente frágeis quanto esta, pois se dita na hora errada, pode condenar duas pessoas a viverem completamente separadas. E foi assim que perdi Julia para sempre.

Julia sempre esteve do meu lado em tudo que eu fosse fazer. Não importava se ficaríamos de castigo por atirar aviãozinho de papel na sala de aula do jardim da infância, se nossos pais descobririam que estávamos matando aulas para irmos ao cinema já no ensino médio ou se teríamos que inventar a mesma desculpa para justificarmos o porquê de viramos a noite fora de casa bebendo com os amigos em frente ao circo voador, a cumplicidade era nossa maior aliada.

Um dia, quando menos esperava, me peguei olhando para Julia, e percebi que jamais havia notado o quão bela ela era. Sua pela era extremamente clara e lisa, seus olhos esverdeados ganhavam destaque por conta do contraste do negro de seus cabelos, sua boca era desenhada de um jeito que era impossível não sentir vontade de beijá-la e seu cheiro decididamente era único. Linda era um jeito rude de defini-la.

Eu havia demorado anos para descobrir que amava a menina que cresceu comigo, mas fiquei aflito por medo de perder um dia a mais para dizer o quanto a amava.

A ansiedade que tomou conta de mim se difundiu com o nervosismo da situação, e ao encontrar Julia, disse sem medo que a amava.

Ela ficou parada por alguns segundos me olhando, como se não acreditasse em minhas palavras. O silêncio foi interrompido por palavras confusas e quase indecifráveis. Ela parecia nervosa com a nova informação, e era perceptível que saber que eu a amava não a fazia feliz. Precisei interrompê-la, pois à medida que ela fala, as palavras perdiam sentido. E impaciente ela gritou que não podia me amar.

Sem ouvir mais explicações eu me afastei de Julia, me afastei até mesmo das pessoas que faziam parte do nosso ciclo de amizade. Eu era só, no imenso deserto de coisas que me fazia lembrar Julia.

Ontem, depois de anos, percebi que jamais soube o porquê dela não poder me amar... Eu fui covarde, por todos esses anos eu não fiz nada além de me afastar, sequer procurei viver uma nova história. Fui uma página em branco de um diário incompleto.

O passado finalmente ganhou seu lugar, a dor que me consumiu por tanto tempo deixou de existir... E eu pareço ter acordado de um sonho repetido, e me libertado para viver o presente.

Julia agora é só uma lembrança bonita, de uma amizade que sempre guardarei comigo.

(Incompleto – Leonardo Kifer).

*Recado para Zil: Meu anjo, deixa o endereço do teu blog, pois tenho tentado entrar e não consigo.

2 comentários:

  1. Eu fechei meu blog...

    Continuo te seguindo de longe....sempre...sempre..


    bjos!


    Zil

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